segunda-feira, 5 de outubro de 2009

E foi assim que o mundo O conheceu.

Estava a ir para a faculdade. Apanhei o comboio e depois de algum tempo reparei que não ia no mesmo lado dos bancos em que vou sempre. E por reparar nisso reparei que o comboio não ia na direcção habitual da faculdade, mas sim no sentido oposto. Os meus olhos abriram-se e o meu corpo começou a preparar-se para responder fisiológicamente a este facto mas ainda antes do meu coração começar a bater, parou. Comecei a sentir-me pesada, os meus olhos queriam fechar-se a todo custo e eu queria mante-los abertos ainda com mais intensidade que eles se queriam fechar. Tudo começara a perder a vida, o som começara a desvanescer, a cor a ficar monocromática, mas foi aí que reparei que quando entrara no comboio já tudo se encontrava assim. Percebi então que algo estava errado, mas já era tarde de mais. O meu corpo já se tinha entregue a o que quer que fosse que se passava, já não conseguia mexer-me, mal conseguia respirar e os meus olhos estavam definitivamente quase fechados. Conseguia ainda ver vultos, mas já com pouca luz, os movimentos da paisagem pareciam-me apenas burrões a guache pretos e brancos a passar, até que tudo ficou negro. Era como se me estivesse a afogar; nenhum som era ouvido, nem mesmo do meu próprio corpo, e a única diferença era a falta de bolhas de oxigénio que deviam soltar-se da minha boca e das minhas narinas, caso efectivamente, me estivesse a afogar.

Não sei quanto tempo passou.
Quando acordei já o sol se tinha posto e o céu tinha-se entregue à mesma escuridão que eu nessa mesma tarde também me entreguei. Chamei por ajuda, mas a minha voz fraquejava. Tentei levantar-me mas o meu corpo continuava diferente, semelhante ao que nos sentimos quando bebemos demasiado. Estava pesado, murcho, tinha dificuldade em mexê-lo e nem sequer o sentia como o meu corpo. Sentia-o como algo incómodo que me estava a impedir de me mexer. E tal era o peso dele que nem conseguir levantar-me decentemente, tentei pedir novamente socorro. Fiquei curvada, talvês um segundo, dois, e caí. Fiquei estendida no chão. A minha visão continuava fosca, só via negro e de vez em quando alguma luz desfocada aparecia. A minha voz, tal como a minha visão estava "embriagada". Custava-me a falar e a minha voz saia distorcida. Conseguia gemer mas fazer sentido para formar palavras custava-me demasiado. Mas estava com medo e continuei a chamar.
Senti o cheiro a tabaco e ouvi passos perto. Tentei abrir novamente os meus olhos e penso que o que vi tenha sido uma pessoa. Consegui perceber que estava perto de mim, mas os meus olhos caíram de novo no abismo que os puxava com tanta intensidade que os mantinha fechados ao mundo. Ouvi novamente passos, e ouvi-os cada vez mais perto. Tentei chamar novamente por ajuda, tentei chamar mais alto, mas os passos contornaram-me e comecei a ouvi-los cada vez mais longe.

Acabei por acordar. O meu corpo finalmente já estava como habitual e conseguia ver perfeitamente, ainda que já tivesse anoitecido. Estava numa estação de comboios onde nunca tinha estado. Tentei procurar com o olhar a placa com o nome da estação mas não encontrei nenhuma. Olhei para o relógio para saber quanto tempo tinha e a surpresa não foi boa. Eram Oito e vinte da noite, eu ia chegar tarde à aula de Dinâmica e ia levar uma falta. Iria ficar marcada pela professora, que de certeza me iria repreender ao entrar no anfiteatro, iria humilhar-me.
Comecei a correr numa direcção aleatória, visto que o limite de chegada à aula sem falta era exactamente às oito e meia. Não sabia onde estava mas o medo foi tanto que tive que correr, mas não cheguei a conclusão nenhuma. Parei e mesmo quando ia começar a cair em mim e saber que nunca chegaria a tempo ouvi vozes na ponte que estava mais à frente, por onde saiam os passageiros do comboio. Tinham acabado de sair os caloiros metaleiros. Acho que nunca tinha ficado feliz por os ver. Gritei 'Hey' e o de cabelo comprido e ondulado olhou. Os outros simplesmente pararam, pareciam bonecos a olhar para o nada, nem sequer direccionaram o olhar para mim. Perguntei onde era a entrada para os comboios e ele indicou, parecendo feliz por ajudar. O problema foi quando tinha que começar a direccionar-me para lá. Não tinha percebido nada das indicações e já tinha dito obrigado por isso não podia voltar  re-perguntar, e ele ainda lá estava a olhar para mim. Fiz um esforço de memória e lá dei com o tal caminho, meio baralhada.

Quando cheguei à plataforma um dos comboios já tinha as portas a apitar. Tentei olhar para ver para onde ia aquele mas não tive tempo para ler a placa. As minha pernas já tinham começado a correr e mais um vez tive medo de ficar entalada na porta. Consegui entrar inteira e rapidamente perguntei aos sujeitos que lá estavam se este passava para onde eu ia. E passava.

E finalmente cheguei à aula. A tempo. Entrei e o anfiteatro estava cheio. Enquando eu descia lentamente, dei-me conta que não sabia da minha mala. Comecei a elevar o tom da minha voz, e as lágrimas vieram-me aos olhos. Não tinha lá muita coisa mas eram as minhas coisas e alguém iria achar os meus tesouros. Comecei a abanar os braços para cima e para baixo enquanto a professora me pedia para me acalmar, como se isso fosse possivel. Até que ela, calmamente, me disse "Tem a mala debaixo do braço". E quando baixei os braços senti o plástico da minha mala tocar-me e suspirei de alívio. Desci então os degraus à procura das minhas companheiras, enquando tudo o resto olhava para mim. Finalmente vi uma mão no ar e desloquei-me na sua direcção.
E tudo ficou escuro de novo. Consigo recordar-me de repentinamente não sentir as minhas pernas e o meu corpo ficar horizontal, de ouvir a professora a falar, a perguntar por mim e mandar todos ficarem quietos nos seus lugares. O meu corpo parecia pesar ainda mais que antes e nem sequer conseguia abrir os olhos, por mais ínfimo que fosse. Acordei. Não, senti-o acordar. Sei que o meu corpo levantou-se e os olhos abriram-se. Mas não eram os meus olhos e quando a voz soou não era a minha voz. Ele olhou para uma das minhas colegas e meteu a mão dentro da minha mala, tirou-a de lá uma arma e apontou-a à cabeça dela.
Alguma palavras foram ditas mas o choque já tinha tomado conta de mim e voltei a mergulhar naquela inconsciência negra.

Lembro-me de mais tarde tarde ele dizer, em inglês britânico "Não quero falar em particular, quero que todos os meus colegas oiçam. Eles têm o direito a ouvir para poderem aprender,". O homem com quem esta conversa foi tida era inglês. Eles começaram a conversar, e eu era capaz de jurar que ninguém naquela sala estava a respirar.

B.
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Já há algumas noites tenho tido sonhos que me fazem acordar uma ou duas vezes. Curiosamente é o segundo em que entram os metaleiros.

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