Era um dia frio - já se estava no Inverno. As nuvens pairavam sobre o céu cinzento, o vento rodopiando em redor do carvalho massajando calmamente ouvindo-se um assobio distante.
A Bolota rebolava monte abaixo, mais uma vez, enquanto o Óscar ainda dormia lá em cima e a Pipoca, sabe-se lá, provavelmente estava a tomar banho, na esperança vã de ficar sem a maionese.
Sendo empurrada pelo vento carinhoso do Outono, competindo com as folhas vermelhas de sangue e amarelas cor-de-fogo, recortadas bruscamente pela Mãe Natureza, a Bolota rolava e rolava enquanto seus pensamentos envolvidos por um novelo de lã consciente, tentavam desenvencilhar o grande nó que esta lhes tinha dado.
Mas desenvencilhar, não desenvencilharia. Por mais que rodasse, o nó ficaria lá. Roçando na erva macia e gelada, seu coração assobiava, tal como o vento, estando recortado, tal como as folhas vermelhas de sangue. Rangia, sussurrava, rodopiava, rolando sobre a erva verde-garrafa como Nemi (pssst, ela é cinzenta).
E chegou ela, por fim, ao fundo do monte. Lá, bastante longe do grande carvalho e do céu, as coisas eram bastante mais feias. A erva não era tão verde. O céu não parecia tão cinzento. O vento parecia chorar. As folhas pareciam sangrar. Mais.
Foi aí que a Bolota percebeu que na verdade o mundo era mais feio sem os seus amigos. Bolota que era bolota tinha que ser ingerida passada a fronteira e [censurar] e ser dada a consumir às pessoas. Sua missão era fazer rir, fazer gritar e chorar. De olhos vermelhos, é claro.
Bolota olhou para o céu com olhos bem abertos e gritou: ... Afinal não gritou. Não havia nada a fazer contra a maneira como rolou. Rolaria sempre da mesma maneira, como ficaria sempre com o mesmo nó. Constatou, tristemente, que as coisas no mundo eram como eram e não as dava para mudar.
Não. E se afinal, enquanto rolasse, rolasse contra uma pedra? Uma pedra no caminho que a fizesse saltar. Mudar de direcção. Mudar. Subiu, subiu mais uma vez. E, vendo o Óscar a respirar lentamente e o barulho de água ainda a correr, voltou a descer. Rolando pelo monte, tentou. Tentou encontrar a sua pedra. A pedra que a faria mudar. Ser o seu leme, dando-lhe rumo pela vastidão tumultuosa e tempestuosa que era a vida. A vida de uma Bolota.

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